Gentes de pouca fé
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Isto não haja dúvida que hoje em dia não há homens como antigamente!
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Nas Festas do Socorro deste ano de 2006, a procissão de recolha da Imagem de Nossa Senhora do Socorro à Igreja Matriz do Peso correu de forma atribulada. Ao contrário do que tem sido habitual nas festas de nossa memória, em que as procissões têm sido brindadas com razoável bom tempo, no dia 16 de Agosto foi a Região do Douro presenteada com uma abençoada chuva para as suas terras.
Porque no entender de alguns responsáveis, as gentes do Largo da Ponte não aceitariam o facto de a procissão lá não ir, resolveu-se que lá fosse, mesmo chovendo, submetendo, entre outros, as crianças à provação da chuva.
No regresso, e como a chuva teimava em continuar, decidiram a interrupção do cortejo religioso e o refúgio de alguns dos seus comparticipantes e andores no interior da Igreja da Casa da Criança.
Com uns pingos de chuva se desfez a postura formal dos “senhores vip”, dos mordomos, dos pegadores de andores. E em consequência os responsáveis decidiram interromper o préstito. Que se retirassem as crianças, compreendia-se e exigia-se. Que não se fosse ao Largo da Ponte, mas directamente para o Peso, aceitava-se. Agora refugiarem-se duns pingos de chuva? Os auto intitulados homens do Douro?
Instalou-se o desnorte. E toda a gente, desorientada por não saber o que fazer, tentava conciliar o para si inconciliável: cumprir a tradição do regresso da imagem de Nossa Senhora do Socorro com os incomodativos pingos de chuva.
Não haja dúvida que hoje em dia já não há homens como antigamente!
O Coordenador das Festas anunciou aos peregrinos, pelas ruas do seu trajecto, que a procissão não se consumava devido à nefasta chuva.
Os crentes, na sua grande maioria, e devido à notícia, entraram em debandada.
Os bombeiros voluntários, em mais um rasgo de heroísmo, como é seu apanágio, levaram de regresso, à chuva, o andor de São Marçal.
Os guardas republicanos, como que penitenciando as suas falhas, mantiveram-se no seu lugar, cumprindo a máxima de que «chuva civil não molha militares».
Neste país de Nossa Senhora povos há que não arredam pé, quer faça chuva, sol ou neve, e a procissão se cumpre. As gentes do Douro, as genuínas, trabalham quer faça chuva, frio ou sol. Não arredam pé! As verdadeiras gentes do Douro vindimam sobre um tórrido sol ou uma fria chuva! Tratam a terra em qualquer adversidade! Não arredam pé! No tempo dos barcos rabelos, os homens do Douro não arredavam pé perante o perigo!
Choveu sempre, até que aliviou um pouco, tornando-se este facto como que a abençoada, necessária e esperada solução para que se cumprisse a tradição, e a Imagem de Nossa Senhora do Socorro pudesse regressar à sua Igreja Matriz.
Como que aliviados, os “senhores vip”, os mordomos, os pegadores de andores, lá resolveram reiniciar a procissão, demonstrando querer cumprir a tradição, e demonstrar a sua fé à custa do São Pedro que entretanto resolvera fechar a torneira da chuva.
Saíram os andores, formou-se a procissão, juntaram-se-lhes o que restou dos “senhores vip”, dos mordomos, dos pegadores de andores, e lá se cumpriu a tradição.
Até parece que foi castigo. Molhados já estavam e molhados continuaram até ao seu destino. A Divina Providência encarregou-se de reabrir a torneira da chuva. E a chuva acompanhou a procissão, os “senhores vip”, os mordomos, os pegadores de andores.
À chegada, os peregrinos que ainda se encontravam no adro e na zona envolvente à Igreja Matriz saudaram o andor e a Imagem de Nossa Senhora do Socorro, batendo palmas. Cumprira-se a tradição.
E assim foi posta à prova a fé dos “senhores vip”, dos mordomos, dos pegadores de andores, que mais uma vez se demonstrou não ser muita, mas de fachada.
