O QUARTETO DO MUSEU DO DOURO
«O Quarteto do Museu (Não se entende esta ideia do Museu do Douro em contratar um quarteto residente. É afastar-se completamente da finalidade e objectivos para que foi criado. Então não era mais correcto estabelecerem parcerias com o Conservatório Regional, com as bandas filarmónicas durienses e com os grupos etnográficos da região, que estão implantados no terreno, têm riqueza patrimonial, cultural, e poderiam dar ao Museu uma programação variada e exclusivamente duriense? Teme-se que a época dos inócuos caprichos palacianos, que caracterizou a anterior Direcção, volte às práticas do Museu do Douro) O trabalho no Museu do Douro não anda por aí além. Com a mudança de Direcção augurava-se uma nova era, mas, um pouco veladamente, algum descontentamento vai-se instalando. A actuação do Museu tem revelado alguns embaraços, manifestados na precariedade da sua programação, na lentidão com que trata acções que se requeriam com mais genica, nalguma confusão instalada e da dificuldade em fazerem cumprir os objectivos para o qual aquela instituição foi criada. É muito provável que, até sobre o ponto de vista da estrutura humana do Museu, haja muitas lacunas, isto é, falta de especialistas em certas matérias essenciais e excesso de outros em áreas menos importantes. A recente ideia da contratação de um quarteto residente é a prova de que se pretende resolver certas falhas da forma mais cómoda. Contudo, também mais onerosa e que, provavelmente, menos contribuirá para o cumprimento dos objectivos que deviam nortear as acções do Museu. Antes de mais queria ressalvar que não está em causa a qualidade do quarteto, composto por quatro músicos de craveira reconhecida e de excelente reputação. A questão é outra, e envolve um trabalho muito mais alargado e exaustivo, mas também muito mais interessante e genuinamente duriense. Se a questão, antes de mais, é de programação musical e não outra, ou seja, se o Museu entende que deve ter apoio musical, devia fazê-lo de acordo com o que define estatutariamente a sua finalidade. Vejamos. A região é suficientemente rica musicalmente para “abastecer” o Museu. O Conservatório Regional de Vila Real movimenta 1500 alunos de todo o Douro, tem um corpo docente considerável, pratica vários géneros musicais em todos os instrumentos, está preparado para variados concertos desde a “solo” até orquestral. As bandas filarmónicas da região possuem, quase todas elas, escolas de música e também são uma mais valia musical inestimável. Os grupos etnográficos, desde os mais avançados e que lidam com o tratamento da música étnica, até aos denominados “ranchos folclóricos”, também são representativos do Douro, das suas tradições musicais e vivenciais. Há ainda compositores e executantes oriundos da região que continuam a trabalhar nela, e que são de reconhecida qualidade. Toda esta gente está implantada no terreno, conhece a música duriense, desde a clássica à folclórica, tem um manancial cultural muitas vezes desconhecido e, acima de tudo, são de cá e fazem as coisas de cá. Porque não, então, estabelecer parcerias de colaboração entre eles e o Museu do Douro? Para além de garantir uma programação variada, estimular-se-ia a investigação, dava-se a conhecer os músicos durienses, muito da riqueza documental poderia passar para as mãos do Museu, e tudo isto ficaria mais barato. Apesar de não saber o preço, tenho a certeza de que o quarteto é caro. E é também limitado. Um quarteto é um quarteto, o repertório existente e interessante para este tipo de agrupamento, não é tão vasto e variado como se possa pensar. E depois, será que haverá paciência para ouvir repetidamente um quarteto hoje e amanhã? Haidn, Mozart, Vivaldi, são geniais, mas têm alguma coisa a ver com o Douro? Com um Museu que se pretende do Douro? No fundo, optou-se pela solução mais fácil e que dá menos trabalho. Entrega-se um serviço musical a um quarteto, e pronto! A cultura duriense não vai beneficiar em nada com este agrupamento residente. Vão-se gastar milhares que poderiam ser aproveitados pela região na divulgação da sua música. E depois, digam lá: será que alguém vem do Porto ou de Lisboa à Régua para ouvir um quarteto de cordas tocar? Será que mesmo os estrangeiros que nos visitam não preferiam algo de mais genuíno e regional? Por outras palavras: alguém vai daqui ao Algarve, aos Açores, a Cuba, à Austrália, à República Dominicana, para ouvir um quarteto de cordas tocar Haidn?Contudo, esta questão é mais vasta. Muito mais vasta e que se prende, como falei, com a estrutura humana do Museu que, repito, é excessiva em assuntos de somenos importância, e deficitária em áreas essenciais para que o Museu cumpra com os objectivos para que foi criado. Teme-se que a época dos inócuos caprichos palacianos, que caracterizou a anterior Direcção, volte às práticas do Museu do Douro. Por Francisco Gouveia, Engº. gouveiafrancisco@hotmail.com» Com a devida Vénia ao Notícias do Douro, de 29/05/2009 |









